A família que nasceu cantando
Lincoln Paulino da Costa, o Liu, nasceu em 07 de agosto de 1934. Walter Paulino da Costa, o Léu, nasceu em 02 de abril de 1937. Os dois vieram ao mundo no mesmo lugar: Itajobi, no interior de São Paulo. Filhos de Gabriel Paulino da Costa e Maria Rosa Mendes, eram os caçulas de nove irmãos.
E não era uma família qualquer. Na casa dos Paulino, todo mundo cantava. O pai e a mãe cantavam, os filhos cantavam. Sem rádio, sem palco, sem pensar em fama. Cantavam por brincadeira mesmo, à tardezinha, no terreiro, quando voltavam da roça. Revezavam a viola entre os irmãos. Eram sempre chamados para animar as festas da região, cantar e dançar catira – que era outra marca registrada da família.
Dali saíram quatro profissionais de alto gabarito. Além de Liu e Léu, os irmãos mais velhos Zico e Zeca já eram famosos. E ainda eram primos de Vieira e Vieirinha. Itajobi pode ser pequena no mapa, mas é gigante na história da música sertaneja.

Os primeiros a tentar a sorte
Vieira e Vieirinha foram os primeiros da família a buscar a vida profissional. Foi em 1950. Dois anos depois, em 1952, Zeca foi para São Paulo para formar dupla com Zé Carreiro. No caminho, encontrou Teddy Vieira, um nome que mudaria a história de toda a família. Teddy deu o conselho certeiro: “Dupla de irmão sempre dá mais certo”. Zeca chamou o irmão Zico e, em 1º de janeiro de 1953, os dois estrearam no rádio paulistano.
Enquanto os irmãos mais velhos venciam na capital, Lincoln e Walter ficaram no interior, trabalhando duro nas lavouras de café de Itajobi. Cantavam nas horas vagas, sem pretensão.
Walter, na verdade, começou no rádio primeiro. Ainda em Novo Horizonte, formou dupla com um vizinho. Eram Sampaio e Neném Cunha. Se apresentavam na Rádio Emissora ZYS-9, a famosa Emissora do Vale do Tietê. Era o primeiro contato com o microfone, mas ainda era só uma brincadeira de interior.
1957 – O acaso que mudou tudo
Em 1957, os dois resolveram tentar a vida em São Paulo. Não era por causa da música. Era por emprego, por uma vida melhor. Nem passava pela cabeça deles seguir carreira artística.
Com poucos dias na capital, foram até a Rádio Bandeirantes assistir à festa de aniversário do programa “Brasil Caboclo”, do Capitão Barduíno. Na época, Zico e Zeca já eram muito famosos. Alguém na plateia reconheceu: “Olha, ali estão os irmãos do Zico e Zeca!”.
Quando o programa acabou, a festa continuou para a plateia. Chamaram os dois para cantar. Pegaram instrumentos emprestados ali mesmo e cantaram “Meu Ranchinho”, de Dino Franco. A voz encaixou, a viola chorou.
Na plateia estava Zacarias Mourão, apresentador do programa “Novidades Sertanejas”. Ele não teve dúvida e os convidou para participar. A estreia oficial de Liu e Léu aconteceu em 05 de novembro de 1957, de manhãzinha, no programa de Zacarias Mourão, na Rádio Bandeirantes. Dali, não pararam mais. Participaram uma longa temporada do programa e logo foram chamados para os gigantes da época: “Serra da Mantiqueira” e o próprio “Brasil Caboclo”.

O padrinho Teddy Vieira e o primeiro disco
Teddy Vieira já era um grande amigo da família. Muito antes de Liu e Léu irem para São Paulo, ele já tinha passado dias na fazenda deles em Itajobi. Virou padrinho musical.
Em 1959, com apoio de Teddy, que na época já tinha um cargo importante na gravadora Chantecler – cujo diretor era o Palmeira -, Liu e Léu foram contratados para gravar o primeiro disco de 78 rotações.
O primeiro disco veio com duas modas de peso: “Rei do Café”, de Teddy Vieira e Carreirinho, e “Carreiras de Cururu”, de Piraci, Biguá e Teddy Vieira. Logo em seguida, gravaram o segundo 78 rpm com “Boiadeiro Errante”, de Teddy Vieira, e “Baile na Roça”, de Teddy Vieira e Zico.
Eram músicas que falavam da vida que eles conheciam: o café, a boiada, o baile na roça. O povo se identificou na hora.
O sucesso nas ondas do rádio
Com disco na praça, a dupla não saiu mais do rádio. Em 1960, foram para a Rádio 9 de Julho para participar do “Prelúdio Sertanejo”, apresentado por Geraldo Meirelles, um dos programas mais respeitados da época.
Em 1962, veio a consagração. A música “Meu Ranchinho”, aquela mesma que cantaram emprestada no dia que foram reconhecidos como irmãos de Zico e Zeca, foi premiada como a melhor música do ano. Foi o empurrão que faltava. A Chantecler deu a eles o primeiro LP da carreira, intitulado “Nosso Rancho”.
Ficaram na Rádio 9 de Julho até 1963, quando foram contratados pela Rádio Nacional para integrar a linha sertaneja comandada por Edgard de Souza.
Em 1967, a Rádio Nacional promoveu um Festival de Música Sertaneja só com duplas profissionais. Liu e Léu defenderam quatro músicas: “Bambico, Bambuê”, “Canção da Simplicidade”, “Cascata” e “A Terra e o Homem”. “Canção da Simplicidade” chegou à final, mostrando a força poética da dupla.
Depois de uma longa temporada na Nacional, foram para o programa sertanejo mais famoso do país na época: o “Linha Sertaneja Classe A”, da Rádio Record de São Paulo. Primeiro com Sebastião Victor, depois com José Russo. Ficaram ali por cinco a seis anos. Saíram da Record e foram para a Rádio Tupi, no Programa do Caboclão.

Empresários da música sertaneja
Em 1978, Liu e Léu fizeram algo que poucas duplas da época tiveram coragem de fazer: montaram a própria gravadora, a Tocantins. Não era só para gravar eles. Era para dar oportunidade para outras duplas. As primeiras a gravar lá foram Genil e Genel e Taviano Tavares.
Em 1980, lançaram o primeiro trabalho na própria gravadora, o LP “Sementinha”. Foi um estouro. A música-título virou hino nas rodas de viola. Na Tocantins, gravaram um total de 07 discos. Até seus irmãos Zico e Zeca gravaram 04 discos por lá. Ficaram à frente da fábrica até 1992, quando decidiram vender.
Mesmo como empresários, nunca pararam de cantar. Estiveram na Rádio Globo de São Paulo em 1981, no programa “Sábado Especial” de Zancopé Simões, e voltaram à Record em 1984 com Carlito Martins, no “Linha Sertaneja Classe A” aos domingos e no “Alvorada Sertaneja Classe A” às quartas, às cinco da manhã.
Depois de vender a gravadora, se afastaram um pouco dos discos e focaram em shows e programas de TV. Só voltaram a gravar em 2002, pela gravadora Atração, com o CD “Jeitão de Caboclo”. Em 2008, gravaram um trabalho brilhante em comemoração aos 50 anos de carreira.

Números de uma carreira gigante
Em 55 anos de estrada, Liu e Léu construíram números impressionantes: 11 discos de 78 rpm, 28 LPs, 02 CDs de lançamento e 15 CDs de coletânea.
Entre os grandes sucessos que até hoje tocam nas rádios do interior, estão: Boiadeiro Errante, Caminheiro, Sementinha, O Ipê e o Prisioneiro, Mãe de Carvão, Rainha do Paraná, Velho Pouso de Boiada, Prato do Dia, Rei do Café, Dona Saudade, entre tantos outros.
Não foi à toa que receberam de Dino Franco o slogan que os definiu para sempre: “A Expressão Máxima da Música Sertaneja”. Porque era isso que eles eram. Não gritavam, não faziam firula. Cantavam liso, com afinação de irmãos que cantam juntos desde o terreiro de Itajobi.
A despedida
A dupla se desfez com o falecimento de Liu, em 04 de agosto de 2012, vítima de problemas pulmonares. Depois da partida do irmão, Léu ainda cantou ao lado do irmão Zeca, até o falecimento deste em 28 de setembro de 2013.
Mesmo sozinho, Léu não parou. Continuou participando de homenagens e apresentações ao lado do violonista e produtor musical Joãozinho, até o final de 2017, quando adoeceu, também com problemas pulmonares.
Léu faleceu em 16 de maio de 2019, em sua residência na capital paulista. Com ele, se fechava o ciclo de uma das famílias mais tradicionais de violeiros e catireiros que o Brasil já conheceu. De Itajobi para o mundo, os irmãos Paulino deixaram a alma do sertão gravada na voz.
Veja também a história dos irmãos deles: https://saudadeboa.com.br/zico-e-zeca-a-historia-completa-dos-violeiros-que-trouxeram-na-voz-a-alma-do-sertao/
-

Liu e Léu: A História Completa da Expressão Máxima da Música Sertaneja
A família que nasceu cantando Lincoln Paulino da Costa, o Liu, nasceu em 07 de…
-

Zico e Zeca: A História Completa dos Violeiros que Trouxeram na Voz a Alma do Sertão
Quem Eram Zico e Zeca? As Raízes em Itajobi A história da música sertaneja raiz…
Deixe um comentário